As Histórias em Quadrinhos

13:08 MoizaCARTUNS 1 Comments

Alô, galera! Aqui quem escreve é o MOIZA, um dos "jornalistas" do NI que tirou uma looooooooooonga licença da redação, mas que pretende ir voltando a postar por aqui aos pouquinhos. Tudo bem com todos?

Sabem? Uma coisa que curto pacas escrever e estudar é sobre quadrinhos. Que tal - pensei - compartilhar um pouco do que acho que sei sobre o assunto com os leitores do NI?

História em Quadrinhos – ou HQ, pra encurtar – é uma forma de contar uma história por meio de desenhos dispostos dentro de quadrinhos. O mestre quadrinhista Will Eisner a denominou “arte sequencial”, pelos vários desenhos elaborados em sequência – não importa qual seja (de frente pra trás, como os ocidentais; de trás pra frente, como os orientais; de baixo pra cima, como acabei de inventar...). O importante é que seja uma série de desenhos elaborados de forma a contar uma história, um conto, uma ficção... qualquer coisa.

Na postagem presente vamos falar um pouco da história (resumida, obviamente) das HQs – que é um dos poucos assuntos de HISTÓRIA de que realmente gosto. Preparados para a viagem no tempo? Não?! Ahh... ainda não apertaram os cintos? Tudo bem, eu espero...


A GÊNESE

Dar um marco inicial para a história das Histórias em Quadrinhos é uma tarefa complicada. Há quem atribua aos hieróglifos egípcios o início das artes seqüenciais quadrinhísticas. Alguns mais exagerados veem nas artes rupestres (aquelas pinturas pré-históricas nas cavernas) uma manifestação ainda mais antiga de Histórias em Quadrinhos. Outros veem HQ até nas tapeçarias medievais, nos emakimonos japoneses (pinturas e textos em rolos que contavam uma história à medida que eram desenrolados), em vasos de quinta dinastia; enfim, em qualquer coisa que lembre arte sequencial. O que é um erro! HQs não são a única forma de arte seqüencial existente.

Poucos, porém, discordam que a primeira manifestação de História em Quadrinhos mesmo, tal como a conhecemos hoje (em sequência, com personagens fixos, frases... sabem como é, né?), é Yellow Kid (“O Menino Amarelo”), de Richard Outcault. O personagem apareceu pela primeira vez em 1896, nas tirinhas do jornal New York Sunday World. Ainda não existiam os populares balõezinhos com frases (as frases apareciam escritas no próprio roupão do personagem), nem os desenhos eram exatamente dispostos em quadrinhos arranjados (eram jogados nos espaços das tirinhas, numa bagunça só), mas os traços infantis e a forma sequencial da arte contando uma história já estavam presentes.

Já em 1897 chegou a vez de Rudolph Dirks dar sua grande contribuição à história. Com Katzenjammer Kids (“Os Sobrinhos do Capitão”), Dirks reinventou as HQs usando balões com frases e o método de desenhos dentro de quadrinhos em sequência. Com Winsor McCay, na obra Little Nemo in The Slumberland, lançada em 1905, os quadrinhos passam por uma revolução estética surpreendente, com perspectivas e traços surrealistas.

As tirinhas continuavam a ser aperfeiçoadas. George Herriman lança Krazy Kat, as primeiras tirinhas dirigidas a um público mais maduro. Os traços se pareciam mais com rabiscos obscuros e surreais, com histórias cômicas e absurdas de perseguição entre um gato, um rato e um cachorro... por causa de amores não correspondidos! Depois, surge o Gato Felix, de Pat Sullivan, direcionado a crianças; e Disney lança Mickey Mouse e sua trupe. Em 1929, Elzie Segar lançar Popeye, o famoso marinheiro que come espinafres em latas como forma de propaganda sobre a importância das crianças nutrirem-se com legumes e vegetais. Os quadrinhos começam, então, a desempenhar um papel mais educativo, sem perder o bom humor.


DÉCADA DE 30

Os anos 30 foram dos mais promissores para a história das HQs. Betty Boop, de Max Fleischer, surge em 1930. Suas curvas, decotes e pernas de fora com cintinhas marcaram época – e, embora atualmente não mais se vejam filmes e gibis com a mocinha, ela continua sendo uma MARCA comercial das mais proeminentes. Alex Raymond lança grandes sagas, como as aventuras de Flash Gordon, Jungle Jim (“Jim das Selvas”, baseado no personagem Tarzan) e o agente secreto X-9. Dick Tracy, o famoso detetive difícil de matar e dotado de grande inteligência, criado por Chester Gould, foi lançado em 1931. Surgiram, ainda neste época, personagens como o Fantasma e Mandrake, de Lee Falk.

Em 1933 é publicada, nos Estados Unidos, a primeira revista americana de quadrinhos: “Funnies on Parade”. Depois, em 1938, com a editora Action Comics, lançou-se Super-Homem, de Jerry Siegel e Joe Shuster... aliás, uma super-inovação que passou a ser paradigma a quase todos os super-herois que viriam a ser criados mais tarde. Em 1939 inicia-se a Segunda Guerra Mundial; e os heróicos personagens dos quadrinhos passaram a se envolver em tramas de guerra e violência. Grandes criações como Capitão Marvel, Tocha Humana, Namor, Capitão América e The Spirit surgiram no decorrer do grande conflito global.


OS FAMIGERADOS “COMICS CODES”

A década de 50 marcou os anos de ouro dos quadrinhos, com crianças e adultos fascinados pela atmosfera cômica e pelos personagens heróicos das revistas e tirinhas de jornal.

Foram, também, surgindo histórias de terror e violência que eram lidos, em sua maioria, por crianças e adolescentes. Era a deixa para que pais, educadores e legisladores de todo o mundo resolvessem fazer guerra contra os quadrinhos. Fredric Wertham, um alemão formado em Medicina (ou seja, não manjando porcaria nenhuma de psicologia, tampouco quadrinhos) lança o livro Seduction of the Innocent (“Sedução do Inocente”), acusando os quadrinhos de perverter valores morais e de emburrecer as crianças – supostamente por deixar de ler livros para se dedicar às revistas de HQs e tirinhas. Dizia-se, mais, que os quadrinhos estavam carregados de violência, terror, sexo, doutrinas comunistas e discriminação racial (como se este último fosse motivo pra censura numa época de forte racismo nos EUA).

Foi o bastante para que a Comic Code Authority fosse criada como forma de regulamentar os quadrinhos. E regulava-se tudo: conteúdo das revistas, cores, temas e palavras a serem utilizados, formatos etc. Todos os lançamentos deveriam ostentar um selo na capa atestando sua aprovação conforme as regras.

O mercado de revistas de super-heróis desmoronou com isso tudo... mas as tirinhas de jornal voltaram aos tempos de glória, com grandes personagens surgindo, como Asterix e Obelix, Mortadelo e Salaminho, Os Smurfs, dentre outros.

A década de 60, porém, veio para restaurar o mercado de Quadrinhos de super-herois. Personagens como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Thor e Surfista Prateado, todos da editora Marvel Comics, surgem com grande aceitação popular – graças à natureza mais humanitária, altruísta, com instinto de fazer justiça sem ferir ou matar pessoas, que marcava a personalidade desses super-heróis. Isso, aliás, o Comic Code Authority até permitia.

No finalzinho da mesma década de 60 surgiram as super-heroínas eróticas, como Vampirella e Jodelle. Por fim, uma era mais underground começou a se manifestar, com quadrinhos abordando temas como drogas e sexo inconseqüente; especialmente com as teratológicas obras de Robert Crumb.

Pelo visto, as “Comics Code”, apesar de ainda em pleno vigor, já estavam perdendo força.


OS QUADRINHOS ATUAIS

Da década de 90 até os dias atuais grandes obras quadrinísticas surgiram, prestigiando o mercado das HQs e oferecendo uma enorme variedade de títulos. Nomes como Neil Gaiman (autor de Sandman, o mestre dos sonhos), Alan Moore (autor de Hellblazer e Watchmen), Frank Miller (autor de O Cavaleiro das Trevas e Sin City), Todd MacFarlane (criador de Spawn), Jim Davis (criador do gato gordo e laranja Garfield), Bill Waterson (autor das tirinhas Calvin e Hobbes), Alex Ross (desenhista de obras como Marvels e Reino do Amanhã, respeitadíssimo por seus traços e pinturas altamente realistas), dentre outros tantos, revolucionaram a arte das HQs. Em 1986, Allan Moore e Dave Gibbons dão à luz WATCHMEN, considerada a obra-prima máxima dos Quadrinhos, responsável por mudar tudo o que se produzia até então sobre super-herois.

Surge ainda, no fim dos anos 90, a poderosa editora Image Comics, fundada por ex-desenhistas da Marvel e da DC Comics, com promessas de grande revolução nos padrões gráficos e uma leva de super-grupos de heróis violentos como Gen 13, Wild C.A.T.S., Youngblood e outros... além, claro, de Spawn, o justiceiro vindo do inferno.

Infelizmente, porém, a partir dos anos 90 em diante, a fórmula dos Quadrinhos parece ter se esgotado. O mercado quadrinhístico tem decaído aos poucos – com exceção das HQs provenientes da Terra do Sol Nascente: os mangás; atualmente, as revistas de quadrinhos mais lidas do mundo. Os mangás ganharam projeção mundial nos anos 60, especialmente quando a série animada “Tetsuwan Atomu” (Astro Boy), de Osamu Tezuka, passou a ser exibida nos Estados Unidos.


E QUANTO AO BRASIL?

Nosso país pode até ser atrasado em inúmeros aspectos, mas não ficou pra trás no quesito Quadrinhos. Em 1869, Angelo Agostini, um italiano naturalizado brasileiro, lança “As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte”, em historinhas curtas publicadas na revista Vida Fluminense. Em 1886, o mesmo Agostini lança “As Aventuras de Zé Caipora”, a primeira HQ brasileira de muitas páginas. Com arte primorosa, traços detalhistas e personagens caricaturescos, Agostini pode se considerar – ou melhor, podia (pois já morreu, obviamente) – um dos precursores dos quadrinhos no mundo.

Em 1921, Belmonte cria Juca Pato, um personagem representante da classe média paulista que só se dava mal. A importância do personagem é tamanha na história das HQs nacionais, que se criou o Troféu “Juca Pato”, a ser entregue a escritores brasileiros de grande destaque. O troféu existe até hoje. Em 1942, Péricles cria um dos personagens mais célebres dos quadrinhos nacionais: O Amigo da Onça, com aventuras publicadas na revista “O Cruzeiro”. Em 1957, Edmundo Rodriguez cria Jerônimo, um personagem estilo faroeste. Ainda nos anos 50, Carlos Zéfiro produziu uma série de quadrinhos eróticos independentes.

A primeira revista de quadrinhos do Brasil surge em 1905: “O Tico Tico”. Em 1939 foi publicada a revista “O Gibi”, com trabalhos de vários artistas nacionais. O nome da revista ganhou uma projeção tamanha que se tornou sinônimo de qualquer revista com HQs no Brasil.

Em 1960, surge O Pererê, uma revista de quadrinhos com textos e ilustrações do cartunista Ziraldo e personagens do folclore nacional. Na mesma época, Henfil inicia seus trabalhos com tirinhas políticas e satíricas com os personagens Graúna e Os Fradinhos, consagrando-se um ícone dos Quadrinhos nacionais.

Com a ditadura reinante nos períodos de 1964 a 1985, muitos quadrinhos brasileiros foram censurados, acusados de subversão ao regime imposto. Entretanto, a repreensão não impediu os surgimentos de edições jornalísticas como O Pasquim, que criticava a ditadura por meio de charges. Em 1974, a editora Abril lança a revista Crás!, como tentativa de abrir espaço para os Quadrinhos nacionais – infelizmente, um fracasso de vendas, encerrando suas atividades no ano seguinte.

No finalzinho de 1959, Mauricio de Sousa inicia seus trabalhos com tirinhas diárias no jornal Folha da Tarde e, em 1970, lança a primeira revista com a turma de personagens mais famosa da história das HQs brasileiras: a Turma da Mônica.

A década de 80 veio para calcar vários nomes na história das HQs, como Angeli (chargista e criador da série de tirinhas Chiclete com Banana), Laerte Coutinho (grande expoente dos quadrinhos nacionais, criador de personagens como Overman, Hugo Baracchinni e, em especial, os sanguinários Piratas do Tietê), Adão Iturrusgarai (criador da ninfomaníaca Aline), Fernando Gonsales (criador do rato nojento Niquel Náusea), Glauco e outros. Todos trabalhando com tirinhas de jornal. Pra fechar, em 2009 o MoiZa aqui (este que vos escreve) começa a desenhar tirinhas do garoto pimentinha Mutum para vários jornais do país. A informação é desnecessária, por enquanto... mas, um dia, pode servir pra alguma coisa.


Enfim, eis um pequeno resumo da história das HQs. Uma história que está longe de ter um fim, mesmo com a atual fase de crise. Apesar de tudo, mantenho sempre a esperança de, um dia, a história das HQs venha retomar seu lugar de destaque na própria história da humanidade... e que eu venha a ficar rico produzindo tirinhas e gibis.

Um comentário:

  1. Adorei seu resumo da História das HQ's. Linguagem sucinta, inteligente e bem humorada. Gostaria de conhecer seu trabalho como cartunista também. Se for do mesmo nível descontraído com que vc escreve... Deve ser incrível!! Espero que seu desejo se realize e que vc alcance sucesso como desenhista de quadrinhos. Um abraço, Joelma.

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